domingo, 6 de maio de 2012



Eu quero ir

ao outro lado da rua

          O lado
de cá da rua


                                                                                  é cheio de vazio


Quando eu chegar do lado

                          de lá da rua

                   Quererei o lado
de cá da rua,

pois o lado

                         de lá da rua

                                                                                   é cheio de vazio também


terça-feira, 1 de maio de 2012

SEU EUGÊNIO
Seu Eugênio é mágico. Seu Eugênio é genial. Faz brinquedos fantásticos para as crianças da vizinhança. Ele alegra a todos com seu riso de arrancar sorrisos de qualquer rosto desalmado. Seu Eugênio é mágico. Ele fez para o Duda, menininho que vive sujo e descalço pela rua, um boneco que conta histórias. O boneco tem na memória cerca de 30 historinhas infantis. Quem quiser encontrar o Duda, sempre o procuram para pedir favores a ele, é só olhar ao pé da árvore, deitado ao lado do degrau da casa do Seu Eugênio, escutando as historinhas. Seu Eugênio é genial. Lá vem Seu Eugênio descendo a rua na bicicleta que faz som de trem. Toda molecada segue correndo atrás, é um alvoroço total. Os vizinhos cumprimentam-no. Também, são mais de cinqüenta anos aqui na vila. Tem muita história para contar. Quando chegou por aqui era tudo mato, viu cada casinha ser levantada, as ruas se enchendo, pessoas chegando cada vez mais...
“Ao Sr. Paulo César de Medeiros Pitangueira...” Assim se inicia a carta da prefeitura ao Seu Eugênio. A correspondência foi entregue a muitos moradores da região, era o aviso de despejo. Na região, para o bom desenvolvimento da sociedade, será construída uma gigantesca área comercial. As famílias serão indenizadas corretamente. O menino Duda ficou muito feliz, ele vai morar numa casa nova. Até arrumaram um empreguinho na prefeitura para sua mãe, vagas na creche para seus irmãos. A casa nova terá dois banheiros, um quintalzinho no qual Duda poderá deitar-se abraçado ao boneco. Que nada, o Duda vai esquecer o boneco por aí. Seu Eugênio não será mais genial, nem mágico. Seu Eugênio será somente o Sr. Paulo César de Medeiros Pitangueira. Será um velho maluco, cheio de esquisitices, a morar em outro bairro. E quem sabe, também o tirarão de lá novamente, por outro motivo de progresso, enxotado feito cão. Seu Eugênio é homem inteligente, respeita o progresso, a vida em sociedade e suas necessidades. Mas não é tão simples assim, é um pedaço dele que estão arrancando. Será que ninguém entende? Há quem pense que isso seja um sentimentalismo barato. Eu não entendo como sentimentalismo, é algo tão racional. 
Amanhecido o dia, os tratores chegaram para derrubar algumas casas, dar inicio ao bem estar de todos. Todos? Não. Seu Eugênio dormi. Seu Eugênio está morto em sua cama. Seu Eugênio só queria ser genial; mágico. Ele não entendia o mundo que o chamava de sentimentalista. É razão pura.
Idas e vindas,
à Casa Bandeirista do Tatuapé
Nunca imaginei que sentiria o que senti. Aquelas paredes, aquelas portas, a mesa, a escada, o chão... O que guardam? O que escondem? Se tivessem bocas, contar-nos-iam historias de outrora. Historias de um passado que nos passa despercebido. Abandonado feito trapo jogado no quintal. Percorrer a mão sobre aqueles moveis, é sentir as mãos que se debruçaram ali, é sentir as marcas e as cicatrizes do tempo invadindo a alma. Quantas mãos abriram e fecharam aquelas janelas com medo da chuva forte ou à espera do sol caloroso? As mãos delicadas de uma linda mulher; as mãos calejadas de um tropeiro cego de fome que se achegou à procura de comida; as mãos lisas, acostumadas apenas com as páginas do livro, de um padre. Imagino homens e mulheres subindo e descendo aquelas escadas durante esses 500 anos. Crianças inventando brincadeiras com o barro, com os galhos, com a imaginação livre. Quantos sonhos tiveram seu começo e o seu fim naquele sótão? Quantos olhares foram lançados à margem do rio, prevendo o futuro dos povos? Quantos corpos estiraram-se sob o alpendre, com vistas ao céu de mil estrelas? Aquela casa rodeada de índios, tribo mãe e tribo pai de nossa existência. Índios bravios que olhavam curiosos àquela gente que se aproximava. Gente de corpo coberto, uns se fizeram de amigos e amigos foram, pois cedo ou tarde eles se encontrariam; outros se fizeram de amigos e amigos não foram, julgavam-se superiores, iluminados. Desbravaram as terras brasileiras em busca de riquezas. Encontraram. Levaram. Gozaram. Deixaram-nos a cultura, mistura de raças, panelão de tudo mexido. Bom ou ruim, sinceramente, eu não sei. O fato é que talvez no futuro falte-nos alimento, para a alma e para o corpo, e será no retorno ao nosso passado que encontraremos forças para lutar. Ah, zona leste, os teus filhos nasceram da flecha de um índio. Outras cores, outros objetos, outras palavras juntaram-se à flecha lançada ao ar, contudo, o primeiro quem a lançou, definitivamente, foi um índio.

domingo, 22 de abril de 2012



A chuva
Cai sobre o dia
Feito luva

E a chuva
Cuja mão é o dia
às vezes doída
às vezes arredia

A chuva enruga
A mão
Fria
Fina
À beira da tina

A chuva ressaca
A mulher
Esguia
Fria
Escusada à tina

terça-feira, 17 de abril de 2012

SoNho SONHO s o n h o SO NHO SoNhO

Estava eu numa sala – não parecia ser a da minha casa, mas, por eu estar tão a vontade, talvez fosse - sentado em um sofá. No da frente minha prima de cabeça abaixada, enquanto outras duas primas minhas em pé a frente da instante; uma querendo ir embora, e a outra me entregava dois bombons de chocolate branco. Se for pra escolher, eu prefiro realmente chocolate branco. De repente decido sair do apartamento, já não era mais casa. Eu, duas senhoras, uns amigos e outros não reconhecíveis, precisávamos levar uns cães nalgum lugar. Descíamos a rua de terra. Um casal com seus filhos andavam a nossa frente, eles também levavam uns cães. Ao fim da rua, tinha um gato em pé em cima do muro, dum terreno baldio ao lado. O gato abria a barriga e retirava, com as próprias patas, os filhotes que nasciam. Enquanto isso o casal da frente deixa os cãezinhos no terreno e entra num carro preto que vai embora. Cruzamos a esquina à direita, o cãozinho que estava no colo da senhora virou uma criança, ou algo parecido. Era noite, estava tudo escuro, a senhora decidiu ir até uma casa... Ah, tudo bem. Ela ia carregar o bilhete único. A outra mulher acompanhou-a. Paramos um pouco a frente para espera-las. Os não reconhecíveis continuaram caminhando. Eu esperei um pouco, mas logo depois fui segui-los. Entrei em ruas movimentadas, tipo calçadão de centro comercial, daqui de São Miguel mesmo. No entanto, não vendiam nada. Parecia mais uma festa. Eu não podia marcar bobeira em lugar desconhecido. Resolvi dar a volta no quarteirão e reencontrar os amigos que ficaram esperando as senhoras. Os não reconhecíveis? Eu já havia os perdido de vista. Tentei dar a volta no quarteirão, muita gente, e todas elas pulando; parecia aqueles bate cabeças, sabem? Então, depois ficou confuso e não me lembro. Só sei que saí daquele lugar. Um rapaz apertou-me a mão na saída, e fui até a esquina na qual os amigos tinham ficado. Antes não era bem uma esquina, agora era uma esquina com uma loja, mas tudo bem. Eles estavam dentro da loja, o dia já amanhecera. Pareciam vestir roupas branca e azul, igual aquele uniforme da Casas Bahia. Eu precisava falar com eles, avisá-los que eu estava por ali. Pensei em correr, passar por cima dos móveis da loja até chegar a eles... Não deu, acordei.
Melhor do que tentar colocar um elefante dentro de uma caixinha de fósforo ou fugir de uma bola de bilhar gigante me perseguindo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Falo melhor calado!

Vou a lugares agitados de modo que eu possa pensar em silêncio. Não o agitado de um show de Have Metal, mas o agitado de um bom bar bem básico. O silêncio anda por todos os lugares. Ninguém lhe dá atenção, passa-se despercebido. Procuro aprender com o silêncio. Gosto de ver as pessoas passarem, outras conversarem. Não sou muito simpático a longas conversas, seguir noites adentro com pessoas que não param de falar comigo. Prefiro reparar nas pessoas que conversam ao meu lado, mas nada de ficar a minha frente falando, falando e falando. É por isso que costumam me dizer que sou calado, quietão. Faz-me bem observar tudo que está ao meu redor, e para observar devo me calar. Não sei por que as pessoas falam tanto. Até os mudos falam demais. Não param de chacoalhar as mãos, aqueles dedos apontando pra cima e pra baixo sem sossegos. O problema é que se eu encontrar alguém igual a mim, não sai palavra alguma. Caso contrário, paro o tempo e fico o tempo todo escutando. Concordando sempre com um enfático presente do indicativo do verbo ser: é. Nas muitas vezes, entro em estado de transe, abandono meu corpo e, consequentemente, os amigos que sentam a mesa. Fico ali de corpo presente, no entanto, minha mente debruça-se para controlar os mil demônios que carrego. Entre um bar e outro, entre um gole e outro, as pessoas falam pelos cotovelos. Não sei o que se passava na cabeça de Deus quando criou o homem. E naquele zum zum zum de palavras cortadas entre dentes, as gargalhadas abrem-se, os olhos revelam-se e o sonho continua. E o meu copo cheio sobre a mesa dura tão pouco quanto o instante das coisas. Sirvo-me da cerveja e das pessoas que duram naquele instante. Não sei até onde vai a minha mente. Às vezes tenho medo de ficar preso por lá. Tudo se torna silêncio. É como se apertassem a tecla mudo. As coisas esvaziam-se feito um balde no qual se retira a água. Feito um corpo sem alma. E num piscar de olhos, volto ao mundo. Volto ao silêncio do instante, ao falar e falar das pessoas, dos objetos, do balcão, das luzes. Calado eu falo muito. Calado eu controlo os demônios que os anjos trouxeram-me quando criança. Calado eu vejo a alma que as coisas têm. E depois de alguns copos de cerveja, a alma das coisas faz questão de ser vista. A alma só não se revela quando as pessoas falam sem parar, quando não se escutam. O silêncio é a prece da alma.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

rosa

Onde há a rosa?
Não a vejo entre nós
Não a está no telhado,
Pois há muito não a está no jardim
Não a desejo rosa,
Tampouco vermelha
Só desejo a rosa
A rosa das marias
A rosa dos josés
Duas sílabas: ro-sa
Quatro fonemas: r-o-s-a
Caso a encontre
Afinal, o que direi?
A rosa não está na rosa
Está na maria das rosas
Está no josé das rosas