domingo, 25 de maio de 2014

Espremendo limão com pedaço do dente quebrado
 
Realmente, a vida é engraçada. Pensar que uma boa parte das complicações surge do modo como nos deparamos diante da vida, é engraçado. Problemas aparecem mais do que desaparecem. E não é culpa dos problemas, mas sim da minha incapacidade de refletir sobre eles, da ânsia pelas soluções imediatas. Não se resolve aquilo que não se compreende. Sair de si, colocando-se na própria frente, encarando-se; olhar, sem espelho, quem sempre esteve a olhar o mundo sem nunca ter se notado a si mesmo...
As coisas ditas ruins - coisa do inimigo - são muito mais comuns de apresso, inconscientemente, em grande maioria, do que as coisas ditas boas (coisa do amigo?). Isso porque há um pequeno deus dentro do ser humano a fazer julgamentos. Esse pequeno deus sempre tem a solução para os outros, ainda que nunca para si mesmo. Ele é de uma prepotência, sem dúvida alguma, divina. Ele prevê o futuro, faz profecias, lança pragas e castigos... Ele insiste em dois pontos: negar a novidade dos fatos que surgem, já que foram previstos, impedindo-nos do direito de vivenciar os pormenores; e aplicar a tudo um castigo, como se o castigo, colheita do alheio, fosse punir ou corrigir.
Resumindo, afastar os deuses pequenos de perto e tornar verdade o que se pretende enquanto verdadeiro. Ou seja, ser o deus grande da própria vida. Isso é espremer limão com pedaço do dente quebrado. Certo?

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014



Sou

Um

Ri

So
Fraco da noite e me escondo
Feito criança que ronca

Pra

Ten____tar

Viver no seio da mãe
Longe do tempo veloz

[...]


Cabe em mim
um copo de noite
uma lua cheia
meio dia escuro
outro meio, claro

Cabe em mim
as putas
os bêbados
os viciados
das ruas de são miguel

Cabe em mim
o teu orgasmo
de uma oitava acima
Cabe em mim
um acorde sonolento
do teu compasso nu

Cabe em mim
um passaredo livre
entre pétalas ao vento
Cabe em mim

Cabe em mim
o universo  sob meus pés
e o chão de estrelas
Cabe em mim

Cabe em mim
Tudo que há fora

Tudo que há em mim
Não cabe em lugar algum

[...]

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Poemia & Boesia


Felicidade

II

Basta saberes que és feliz, e então
Já o serás na verdade muito menos:
Na árvore amarga da meditação,
A sombra é triste e os frutos têm venenos.

Se és feliz e o não sabes, tens na mão
O mais bem entre os mais bem terrenos
E chegaste à suprema aspiração,
Que deslumbra os filósofos serenos.

Felicidade... Sombra que só vejo,
Longe do Pensamento e do Desejo,
Surdinando harmonias e sorrindo.

Nessa tranquilidade distraída,
Que as almas simples sentem pela Vida,
Sem mesmo perceber que estão sentindo...


LEÔNI, Raul de. Trechos escolhidos. Luiz Santa Cruz (org.). Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1961. Coleção Nossos Clássicos, Volume 58.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


[...]

Aquele garoto ou aquela garota, distraídos em sala de aula, talvez não sejam habitantes desse planeta. Talvez vivam literalmente no mundo da lua. Pela janela ficam olhando o pássaro que fizera um ninho, ou a pipa rodopiando no céu, ou as pessoas que passam pela rua, ou o dono da quitanda sentado à porta que cutuca o nariz... Tudo chama mais a atenção do que a sala de aula. Pode até ser que a sala de aula chame a atenção, mas virá do teto onde uma pequena aranha faz sua teia. A atenção virá do bordado na barra da saia da Aninha, da professora que tem um perfume doce, do rabisco indecifrável na parede lateral... Arrancar aquela lasquinha da cadeira, não foi por maldade. Morder o tubinho de tinta da caneta, sujando mão e boca, não foi uma desculpa para passear pela escola. É tudo tão assim. É tudo tão repentino quanto o vento que derruba a folha do galho mais alto da árvore. [...]

[...]

Quando o dia se debruça sobre a varanda do nosso apartamento, penso de que vale o pronome possessivo “nosso”. Não só esse, mas todos os pronomes e as palavras que determinam posse. Minha namorada, meu carro, nossa religião, teu status social... Essa varanda não manda no dia que se abre, nem tão pouco sou o dono desse sorriso que traz consigo. Não me sinto bem comigo ao saber que as pessoas, os objetos, as coisas desse e de qualquer outro mundo não são livres. É claro que o apartamento não sairá andando a torto. Não descerá a rua em direção ao farol da avenida. Foi apenas um motivo para pensar. Essa varanda não é minha, não me sinto dono também da flor no vaso. Nem do vaso, nem da terra, muito menos dessa porta de correr que apertei o parafuso na semana passada. No entanto, eu não aceito que qualquer pessoa fale da nossa vida, do nosso apartamento, e que não ousem falar mal da nossa varanda. A porta de correr travou novamente, eu não apertei muito bem o parafuso. Não importa, é nossa porta de correr na nossa varanda onde o dia se debruça. Onde sempre se debruçará...
[...]

É 2013...

Só não se esqueça de que depois de me desejar toda a felicidade do mundo e de dizer que tenho tudo para conquistar “aquilo” que desejo. Depois de apertar minha mão com força e me dar aquele abraço solidário e carinhoso. Depois de olhar em meus olhos e banhar os seus com lágrimas. Depois de dizer que o tempo passa e que esse ano será melhor. Só não se esqueça de que posso querer desistir “daquilo” que desejei, e que a felicidade do mundo não serve para mim, que posso jogar tudo para o ar e resolver colher flores...
Só não se esqueça de que depois de dizer que nossa família será sempre unida. Depois de dizer que os laços desse momento serão eternos, que não há outra família mais feliz que a nossa. Depois do jantar maravilhoso, da mesa farta, das lembranças do passado... Só não se esqueça de que talvez venhamos a cometer falhas, pois não somos perfeitos. Que por um momento de vaidade eu possa falar de ti de modo indelicado, e assim venhamos a brigar e ficar alguns dias, talvez até meses, sem nos falar, mas não há problema, ano que vem nos abraçaremos...
Só não se esqueça de que depois de dizer que seremos amigos para sempre, que serei o padrinho de seu filho e você do meu. Depois de virar aquele copo cheio em nossa homenagem. Depois de chorar, e eu também, com aquele abraço. Só não se esqueça de que os dias passam e talvez fiquemos sem nos ver. Talvez a correria do trabalho, o cansaço do transporte público e as crianças que crescem nos diminuirão o tempo, mas nada além do limite. Basta só ter vontade que nos veremos sempre mais vezes. Talvez mais duas vezes ao ano.
Só não se esqueça de que depois desse amasso na cozinha, desse beijo mordido que lhe roubei às escondidas na sala de visita, como se precisasse. Depois de me dizer que sou o único homem que a fez mulher. Depois de brindar, desejando nosso casamento, e já vendo as crianças correndo a barra da sua saia. Depois de cobrir meus olhos com os seus e por um minuto cegar-me. Só não se esqueça de que por acaso algum dia, ou dias, eu venha me atrasar ao fim da tarde. Entrarei pela sala um pouco embriagado, mas não deixarei de fazer em ti aquela massagem nos pés, e largarei o sapato sobre o tapete. Talvez briguemos porque você dará ouvido - e eu também, por que não? - a alguém que disse que escutou de outra pessoa que ouviu de outra que me viu apertando a mão de uma mulher qualquer...
Mas tudo bem... Isso é futuro. O que importa é o agora! Mas só não se esqueça de que...

sábado, 8 de dezembro de 2012


Tira teu corpo de mim
Dê-me a paz
Nos vagões
Nos porões
Medo, suor e calafrio
Lembro-me do teu seio descoberto
Eterno, céu aberto
Pro fim

Tira teu corpo de mim
Alta, lua cheia
Nos salões
Nos balcões
Garrafa, copo e silêncio
Morro todo ano no inverno
O inferno é pequeno
Pra mim
[...]



Todos os meus eus te amam incondicionalmente

O problema é que mercúrio me rege
E por mais que eu tente
Eu não tenho cura

Eu vou à padaria comprar os pãezinhos sequinhos que você me pediu
Sobre o balcão, eu vejo uma caixinha de leite
Penso nas vaquinhas que me fazem pensar no campo que me faz largar tudo
Como não tem campo na padaria, eu peço uma bebida, e dessa muitas outras
Quando me vejo, estou sem os pãezinhos sequinhos que me pedira
Mas com uma gigantesca imensa vontade de te amar...

[...]


Eu não me canso de pentear
Teus cabelos encaracolados,
Carol

Mesmo quando sais correndo
Levando a escova nos cachos
De sol

Linda, é toda linda, miúda
Com gracejos falando sozinha
Ao vento

[...]

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012



Mariana,
O mar seca na palma da mão
Deixando a pele fria, salgada
As ondas, ah quantas são as ondas
E todas elas silenciosas

Mariana,
Logo o corpo desliza na areia
E o mundo mais antigo e sombrio
Receberá batizado o corpo
Embanhado de mar e de sol

Mariana,
Quanta gente vive sem querer?
Ah, quem me dera por um minuto
Eu ser mar, areia, sol e corpo
E quando o dia morrer, ser noite...

[...]

terça-feira, 27 de novembro de 2012

ACHEI FANTÁSTICO, COPIEI E COLEI DO SITE "Casal sem vergonha". Nem sei se isso pode, mas gostei paaaaaaaaacas!!!!

(http://www.casalsemvergonha.com.br/2011/07/01/46-coisas-que-as-mulheres-nem-imaginam-que-achamos-sexy/)


Mulheres são naturalmente sexy. E esse fato ficou ainda mais claro depois que fizemos uma pesquisa com os leitores do blog perguntando o que eles achavam mais sexy em uma mulher – recebemos milhares de respostas com vários detalhes femininos que os deixam babando.Fizemos um compilado dos itens mais votados e o resultado, você confere agora.
COISAS QUE AS MULHERES NEM IMAGINAM QUE ACHAMOS SEXY
1. Rabo de cavalo com fios soltos;
2. Ela usando minha camisa e mais nada;
3. Barulho do salto alto;
4. Sardinhas no rosto;
5. Quando elas conduzem o sexo;
6. A forma como ela ri;
7. Quando ela senta no nosso colo pra dar um beijo;
8. Um belo par de seios;
9. Quando elas, de vestido ou saia, se esticam pra pegar alguma coisa no alto;
10. O jeito como acordam de cabelo bagunçado e pijama velhinho;
11. Ela deitada de bruços só de calcinha;
12. Cabelo cheiroso;
13. A manha que elas fazem quando chega a hora de nos separarmos;
14. Ela mexendo no cabelo;
15. O jeito como andam descalças na ponta do pé quando o chão está frio;
16. Ela lambendo os dedos depois de comer uma coisa muito gostosa;
17. Inteligência;
18. Quando ela anda pela casa só de calcinha;
19. Pés bonitos;
20. A pose delas de fazer xixi, com as perninhas viradas pra dentro e com a calcinha abaixada;
21. Cabelo molhado;
22. O jeito dela de se preocupar com a gente;
23. Um decote bem utilizado;
24. Quando ela morde a pontinha do óculos;
25. Coque bagunçado;
26. A forma na qual o cabelo cai naturalmente no rosto e o jeito dela de tentar arrumar;
27. Ela tomando sorvete;
28. Quando ela fica com frio e usa nosso moletom;
29. Vestido comprido e pés descalços;
30. Ela passando do banheiro pro quarto só de calcinha pra se arrumar;
31. Covinha nas costas (vulgo “apoio pra dedão”);
32. O jeito de andar;
33. Jeans + blusinha branca;
34. Tatuagem (principalmente as que só dão pra ver uma parte e deixam todo mundo curioso pra ver o final);
35. Um pouco de gordurinha pra ter onde pegar;
36. Atitude;
37. Quando arranham sem machucar;
38. O rosto dela visto de cima quando dorme no nosso peito;
39. Quando ela acorda de calcinha e se espreguiça gostosamente;
40. Blusa que deixa um ombro de fora;
41. Ela totalmente depilada;
42. Blusa sem sutiã;
43. O cheiro delicioso que deixam na casa depois do banho;
44. Quando elas não usam maquiagem;
45. Ossinho saliente na cintura;
46. Sentir todo o corpo dela quando dormimos de conchinha.
Para fins de direitos autorais de imagem declaro que as fotos usadas no post não são de minha autoria e que os autores não foram identificados.

domingo, 19 de agosto de 2012

A outra face

O sol sangra esse sangue salgado
que escorre do meu rosto raso

O céu é cego
O céu é surdo

Nas paredes desse abismo
arranho minhas unhas
já não tenho minhas unhas
arranho minha alma magra
magra de fome da manhã
magra de um mar sem mim

É escuro, é estranho esse abismo
É abismo, é escuro esse estranho
É estranho, é abismo esse escuro

O céu é surdo
O céu é cego

O choro não chega
chega a chuva,
chio baixinho
O choro não chega à chuva
não chega ao sol
não chega
ao céu só
 deixa
 a
b
i
s
m
o

Do Espelho



Eu tento correr até sair daqui. Não consigo. Fugir de mim não é coisa fácil. Quando entrei aqui, pensei que seria simples viver. Sempre ao deitar, desejo estar livre desse lugar pela manhã. Bom seria se um anjo me arrastasse pra bem longe. Não quero compaixão de anjos, eu quero que me arrastem daqui. Não posso mais me ver enquanto o que vejo é tudo o que vivi e ainda vivo por esse espelho. Quebrá-lo não posso, pois caso o fizesse, teria muito mais trabalho ao recolher os pedaços; que são meus também. E essa vida não vale o trabalho de recolher esses pedaços. Viver por aqui já é um grande trabalho [...]

Não acredito em Deus, e o Diabo é a criança mais mimada que existe. Quando se fica dentro de um espelho, Deus e Diabo tornam-se sinônimos. Não costumo demonstrar a eles confiança. Se eu tiver que sair daqui, será por mim mesmo [...]

Eu tento correr, mas a cada corrida, fico mais lento. Percebi que não devo correr dentro de um espelho, é melhor voar [...]

[...]

segunda-feira, 30 de julho de 2012



Quando criança, na escola,
Entraram na sala de aula
E tomaram de mim o sonho
Que eu tinha na mochila.
Ali mesmo,
Lhe deram choque elétrico, tranquilizante
E o amarraram com uma camisa de força.

Quando adolescente,
O homem levou alguns dos meus amigos,
Junto com eles os meus sonhos.
Deixaram os meus amigos a mercê de tudo,
Principalmente da ilusão.
Aqueles amigos, sem sonhos.
Eu, sem sonhos e sem aqueles amigos.

Ontem, no meio da madrugada,
Invadiram a minha casa
Levaram os sonhos
Que eu guardei numa caixinha de papelão
Dentro da gaveta do guarda roupa
Do pequeno barraco
Na rua dos sonhos
Da cidade do sonho

Amanhã,
Eu escondi um sonho no bolso
para que ninguém o encontrasse
Mas, de repente, me enquadraram
Recebi uma carícia bruta no meio da face
Levaram o meu sonho

Pobre homem.
Do nada que me resta,
novos sonhos renascem...





O pior de tudo é esse negócio de celular conectado ao facebook. Eu tenho minhas dúvidas se isso é modernidade, modernoso. Sinceramente, eu não quero ser modernoso. Sinceramente, eu não quero essa modernidade. Eu quero entender como é que um celular funciona. Eu quero entender aqueles códigos que aparecem na tela do computador de um analista de sistema...

"Alô, meu amor?"

Um momentinho só, por favor, desculpa.
...
"Meu amor, eu não quero passar horas e horas falando com você 'en el teléfono celular' (é assim que escreve? Não me lembro agora). Eu quero olhar seus olhos embriagados de cachaça e de amor..."

Desligou na minha cara. Voltando:

Eu gosto de sair por aí, sem destino. Aventuro-me (porra, ficou estranho esse verbo) no transporte público de São Paulo. Detalhe: eu gosto de sair por aí, pois se eu dependesse dele para trabalhar, eu estava lascado... Tanta coisa eu vivo pela janela, tanta janela pede para viver. Tem janela que necessita de uma olhadela, nem que seja de relance. Também existem aquelas que pedem para não serem vistas; elas ' " 'pedem ' " ' (pô, é aspas nas aspas?), entende? É tipo reality show:

- Por favor, não me olhem lavando a "prexeca"!! - eu acho que é assim que escreve. Eu escuto minha família, que graças a Deus é de maioria formada por mulheres, pronunciando essa palavra "prexeca". Deve ser uma mistura de idiomas.

Então, pela janela do busão "cê tá ligado, tiu?", eu vejo o que me invade. Eu me esforço ao máximo para olhar dentro do armazém (eu sei que hoje não exite mais armazém. É loja, né? Enfim, mas eu gosto de palavras antigas). Esforço-me para beber do olhar da vendedora de roupas que sonha com o celular novo que tem acesso à internet. A vendedora vai ficar ligada com as notícias do mundo. Como se fosse resolver alguma coisa na minha vida - desculpem-me os chineses, eu não tenho nada contra os chineses - eu saber que uma moçoila chinesa, que levava na moto mais uns cinco moçoilos, quase foi atropelada.

"Alô, meu amor? Aloooou... Alooooou.."

Um momentinho só por favor.

"Meu amor amor, não me mande um beijo por computador (parafraseando o peixelétrico)..."

A questão é a seguinte: Deculpem-me, por favor, mas eu não consigo ficar com a cabeça abaixada digitando as teclas do celular ou vendo alugma postagem, enquanto a vida passa pela janela! ("Pô, Bruno, você tem que parar com essa mania de pedir desculpas." Ah, é que me sinto um estranho nesse mundo modernoso.). Só uso celular porque me obrigaram!!...
 
 

sexta-feira, 20 de julho de 2012


Não sou poeta por escrever versos.
Não são poesia os meus versos.
Não desejo, em momento algum, escrever poesia.

Sou apenas, definitivamente apenas, um alguém qualquer, definitivamente qualquer,
vivendo um mundo, mais uma vez, em crise;
fervendo a água do café;
soltando leões da jaula.

Poetas são velhos,
mesmo os jovens,
são velhos.

Poetas vivem à frente de seu tempo.
Gozam feito adolescentes, velhos.

A
       ce
nam

Tentamos alcançá-los...
É impossível!
Sempre andam à frente.
(Poetas não correm, andam!)

Mesmo quando
passeiam de tílburi,
frequentam theatros e tabernas,
compram drogas na pharmácia,
eles estão à frente.

Poetas já viveram aquilo que o mundo está vivendo.
Poetas são velhos

quinta-feira, 12 de julho de 2012



Minha viagem
Pode ser que alguém pense que eu uso alguma droga. Até já me passou pela cabeça coisa parecida, entretanto, logo em seguida, perco-a totalmente da minha cabeça.
Pego-me pensando no espaço, nos planetas, no pó das estrelas, no sopro da vida, na dança do Universo... Penso no infinito, que talvez nem seja infinito. Imagino-me atravessando a parede do “infinito” e caindo nas mãos de Deus. É como se o espaço fosse uma bola de cristal nas mãos de Deus e que Deus estivesse brincando com a gente. De vez em quando chacoalhando a bola de cristal - igual àqueles filmes americanos de natal com aquelas bolinhas que nevam -. E Deus está num quarto branco (sendo assim, então, a luz não nasceu da escuridão, e sim a escuridão da luz? Deixa pra lá!); e Deus, na verdade, por mais que a palavra nos remeta a um homem, é um menino brincando com seu único brinquedo num enorme quarto vazio. Uma esfera na qual  está o nosso espaço onde a terra flutua; e esse menino passa horas e horas ali, brincando. Até que sua mãe, repentinamente, atravessa pela porta e diz:
- Deus, vai já arrumar sua cama. Parece bobo com essa bolinha na mão.


segunda-feira, 14 de maio de 2012




“Quando ela dorme em minha casa”
[...] O que penso sobre as coisas é tão fútil. O rídiculo do meu riso fraco que insiste tomar a frente faz-me mais bobo do que já sou. Ver-te linda na cama é tudo que me vale na vida. Abro mão daquilo que não dá mão, só para passar horas vendo teus cabelos escorrerem silenciosos pelo teu corpo calmo. A janela ainda fechada, o nosso é mundo aqui, será sempre aqui. Ver-te linda, desenhada na cama. Ah, queria eu tê-la desenhado; eu a desenharia assim: como a vejo. Os mesmos traços, relevos discretos, linhas e linhas emaranhadas sobre tua pele que eu nunca quero desmaranhar. Ainda bem que não fui o autor de ti, fui mais feliz. Posso morrer a contemplá-la, calado. O ruído das palavras feri o teu silêncio que se espalha intocável [...] De dia, lutarei; de noite, embriagar-me-ei; nas manhãs, amarrarei meu corpo ao teu, sempre.



domingo, 6 de maio de 2012




O ESCRITOR
João Trago Dolores


Toda biblioteca tem um ar especial e a que eu freqüento não é diferente. Talvez seja o fato de muito conhecimento no mesmo lugar, no mesmo espaço. Ideias que entram em atrito, ou em harmonia. Contudo, o que são esses livros expostos nas prateleiras? Eles parecem carne pendurada no açougue, prontas para matar a fome dos famintos por conhecimento. Por aqui cortar ninguém corta, mas Dona Judith e a Dona Emiliana servem-nos verdadeiros filés. Elas conhecem cada livro, onde estão, para onde foram, do que se tratam. Essas senhoras são verdadeiras relíquias do nosso bairro. Deveriam ser canonizadas - elas cuidam tão bem desses livros enrugados e amarelados - ou até mesmo condecoradas cidadãs honorárias do bairro de São Miguel Paulista. Quando meu filho nascer, o primeiro lugar que o levarei será a uma biblioteca. Não que eu tenha nascido numa, porém posso dizer que cresci junto a essas instantes. Folheei essas páginas sentado no chão, escorado nas colunas, agachado, debruçado sobre o armário de consultas. Há também mistérios nesse lugar. O senhor Juca, homem de idade que vive no prédio cuidando da manutenção, contou-me uma vez que escutara na madrugada, quando veio reinstalar a parte elétrica, vozes a conversarem pelo salão. Ele conta que essas vozes discutiam entre si, no entanto, ele não teve a coragem de espiá-las. Ficou espremido no forro do teto, e só saiu de lá quando não escutara nenhum ruído, silêncio total. “Cruz credo! Deus me livre!” Sr. Juca sempre finaliza toda história com interjeições e o sinal da cruz.
Quantos leitores não folhearam essas páginas, esses livros, esses sonhos cuja leitura leva-nos. Realmente, o ambiente é diferente. Até parece que os sentidos ficam mais aguçados, atenciosos. Qualquer ruído é perceptível, no entanto, não nos tira a atenção. Mas foi numa certa manhã, quando fui à biblioteca, como de costume, folhear as páginas do jornal, que fiquei muito encucado. Sentei-me de costume na mesa lateral, com a cadeira de costas para a janela que dá à vista para a rua. E no vai-e-vem de tantas pessoas, um homem chamou-me a atenção. Não parecia ser dali. Já que há tempos freqüento essa biblioteca. Ele se sentou à mesa de frente da qual me sentara. Trouxe consigo um caderno e uma caneta. Deixou-os sobre a mesa e foi até às prateleiras. Até aí tudo bem, não há nada de errado nisso. Continuei a minha leitura. Quando ele voltou a sentar-se, foi o momento que minha curiosidade atiçou-me. Ele fechou os olhos como se estivesse esperando alguma coisa vir na mente, ou talvez estivesse rezando. De repente começou a escrever; parou; retornou a escrever e seguiu desenvolvendo os seus escritos. O mais interessante era a sua fisionomia. Lembrava-me alguém muito próximo, não sei quem, mas lembrava-me. E nessas de: escreve, para; para, escreve. Ele fixou os olhos no papel, leu o que acabara de escrever. Deu risadas para dentro. Olhava com certo desprezo, mas também, em certos momentos, com admiração. Minha curiosidade sobre o que ele escrevia só aumentava. Ele novamente parou e, em seguida, como quem espera uma resposta e não a tem, levantou-se impacientemente. Foi em direção aos livros de filosofia. Por mais que me atentasse a curiosidade, mantive-me sentado em minha cadeira. Voltou falando sozinho. Já sentado, eu o olhava disfarçadamente. Seus olhos fixavam-se para o nada, era uma visão diretamente para o infinito, que não terminava nas paredes da biblioteca, atravessavam-na. Não mais que de repente, ele voltava a escrever. Escrever escrever escrever escrever. Eu já nem lia mais o jornal. Queria decifrá-lo, o escritor. Interpretá-lo. Entender o porquê de escrever. Qual o fundamento de preencher as linhas vazias daquelas folhas de caderno. Para que escrever? Tanto já foi escrito. Será que as palavras não têm fim? O que faz um homem escrever, qual é a razão. O motivo talvez seja a semelhança da palavra e o homem. Ambos não sobrevivem sem a alma, são movidos por sentimentos. Nada mais que sentimento. O que seria da palavra se ela não transbordasse tristezas, alegrias, tragédias, romances. Seria, simplesmente, um amontoado de nada. A alma da palavra é o desejo da consciência de encontrar razão na inconsciência. Assim é o homem também. O que seria de nós sem a infinidade de sentimentos. Não nos faríamos homens se não houvesse a dor, o amor; o bem, o mal. Seríamos um tipo estranho de anormalidade indecifrável que passaria desapercebida na vida terrestre. Então o verbo escrever é muito mais que o seu significado semântico. Ele é o adjetivo, o advérbio, o sujeito, o predicado, o núcleo de tudo que se possa imaginar. É a luz. Depois dessa reflexão comigo mesmo, onde me perdi e não cheguei à conclusão alguma. Observei o escritor, a partir daquele momento, com outros olhos. Eu tinha que saber o que se passava naquele caderno, para onde sua imaginação levava-o... (continua)